Economia

Inclusão e inteligência artificial são focos da força-tarefa de transformação digital do B20

Promover a inclusão digital de pessoas e de empresas de forma segura e criar diretrizes regulatórias para o uso da inteligência artificial são os dois principais temas em discussão pela Força-tarefa de Transformação Digital do Business 20 (B20). O grupo é coordenado por Fernando Rizzo, CEO da Tupy, multinacional brasileira do setor metalúrgico presente em mais de 40 países.

Composto por sete forças-tarefas e um conselho de ação, o B20 é o fórum empresarial dos países do G20. Ao longo dos próximos meses, os oito grupos temáticos discutem recomendações para apresentar aos chefes de Estado na cúpula do G20, no segundo semestre.

“Um ponto que é transversal e deve ser observado em todas as frentes do B20 é que as recomendações contemplem todas as nações envolvidas e gerem benefício para a sociedade como um todo”, afirma Rizzo. Ele aponta que o avanço tecnológico adequado poderá resultar em uma produção agrícola e em um comércio global mais eficientes, além de sistemas educacionais mais personalizados e efetivos.

Para André Bolonhini, sócio da Bain & Company, consultoria que apoia a força-tarefa com dados e inteligência, o objetivo final do grupo é potencializar soluções tecnológicas capazes de acelerar benefícios para sociedade, empresas e países “de maneira muito mais rápida e muito mais efetiva do que se a gente tiver métodos de transformação mais tradicional”.

Para chegar lá, é preciso incluir mais gente. Hoje um dos principais desafios da transformação digital é a desigualdade. O mundo está mais conectado do que nunca – são mais de 5,2 bilhões de usuários ativos da internet e o comércio eletrônico alcançou US$ 6,3 trilhões em 2023 – mas o acesso ainda é desigual. Se na Europa, 87% da população usa a internet, na África são apenas 33%.

Como a inclusão digital impacta as empresas e a economia

A disparidade também se repete ao compararmos empresas de diferentes portes. Mesmo representando 40% do PIB global, as micro, pequenas e médias têm muito mais dificuldade de participar da transformação digital. “Têm menos financiamento, menos capital, mais dificuldade de atrair talentos digitais, de treinar os talentos que ela já tem hoje em dia para se atualizarem”, afirma André Bolonhin.

Nos países em desenvolvimento, a procura não atendida de financiamento no segmento das PMEs está avaliada em 5,2 bilhões de dólares, segundo dados da International Finance Corporation (IFC), braço financeiro do Banco Mundial, apresentados pela Tupy. Isso representa 19% do PIB acumulado destes países.



Em 2023, as recomendações do B20 incluíam promover a transformação empresarial para PMEs por meio do acesso a financiamento sustentável, a uma ferramenta digital específica reconhecida globalmente e a um ambiente regulatório favorável.

Para 2024, a força-tarefa debate a necessidade de facilitar o acesso das PMEs ao financiamento bancário tradicional, permitindo, por exemplo, o uso de garantias como propriedade intelectual e/ ou contas, além de estimular ações que melhorem a capacidade empresarial e a contabilidade dessas empresas, aumentando a segurança para o credor.


“Não é possível considerar que a transformação digital vai gerar benefícios para toda sociedade sem que as pequenas e médias empresas estejam inseridas neste processo”, afirma Rizzo.

CEO da Tupy, Fernando Rizzo, destaca a importância das PMEs para transformação digital do B20. Crédito: Divulgação/Tupy

Outra ideia discutida pelo grupo é a elaboração de leis que permitam que assinatura digital e autenticação eletrônica sejam utilizadas em larga escala em contratos e transações, além da consolidação de sistemas de governo, minimizando burocracias.

O CEO da Tupy destaca que no Brasil, empresas líderes em maturidade digital apresentam taxas de crescimento de EBITDA [lucros antes de descontar juros, impostos, depreciação e amortização] até cinco vezes maiores que as demais, segundo estudo da McKinsey. A mesma publicação estima que a digitalização da economia brasileira possa gerar até R$ 1,1 trilhão em ganhos para o PIB do país.

5G e transformação digital: qual a tecnologia adequada?

Um dos ganhos da digitalização nos negócios é o aumento de produtividade, mas para que ele aconteça é crucial saber onde aplicar esses instrumentos. “Uma tecnologia só tem sentido se eliminar ou diminuir uma restrição, alavancando valor em todas as demais etapas e possibilitando a criação de uma nova regra de negócio”, alerta Rizzo.

O caminho para melhora da produtividade é gradual, passando por técnicas de aprimoramento de gestão e manufatura enxuta em paralelo com a digitalização. “Tem uma certa visão equivocada de achar que todo mundo vai adotar inteligência artificial para hoje, para amanhã. Isso é uma falácia. Não adianta botar IA numa empresa que não tem cloud para fazer o processamento, não tem segurança dos dados, não tem pessoas para trabalhar”, ressalta o economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Luis Claudio Kubota.

Para avançar nessa agenda, duas questões são essenciais: o letramento digital desde o alto escalão até quem opera as tecnologias na ponta e a infraestrutura necessária.

Por causa da baixa latência do 5G – que pode ser 20x mais rápido que o 4G – e a capacidade de conectar com múltiplos dispositivos, ele é essencial para adoção eficiente de algumas tecnologias 4.0 por indústrias, responsáveis por impulsionar a produtividade.

Embora sua disseminação seja uma realidade em vários países, especialmente os integrantes do G20, o acesso ao 5G ainda é limitado em território nacional. “O 4G hoje é a principal banda de transmissão de dados no Brasil. Ele só chega a mais ou menos 30% da população. Tem um pedaço importante da população não só no Brasil, mas em países subdesenvolvidos para quem mesmo o 4G ainda não é uma verdade”, ressalta Bolonhini, da Bain & Company.

Acesso a conectividade adaptado a cada realidade é um dos focos do B20, diz André Bolonhini. Crédito: Divulgação/Bain & Company

Devido a essas diferenças de maturidade digital nos países, a força-tarefa tem se dedicado menos à implementação de tecnologias específicas e mais a esforços para avançar na infraestrutura que permita conectividade a todos integrantes do grupo, com suas devidas especificidades.

Nesse sentido, Rizzo destaca a importância de que os processos de contratação de tecnologias pelos governos sejam menos morosos e centrados em resolver gargalos e em uma melhor gestão dos Fundos de Serviço Universal, recursos administrados pelos governos, normalmente angariados por meio das contribuições das operadoras e usados para subsidiar o custo de implementação de infraestrutura e prestação de serviços onde não há viabilidade econômica para o setor privado operar.

“São fundos com um papel fundamental e que são subutilizados em muitos países do G20. O que temos discutido é a importância de serem mais utilizados e de uma forma eficiente. Seus projetos precisam ter objetivos claros e mensuráveis, além de uma governança e coordenação que permitam maximizar os impactos”, afirma o líder da força-tarefa.

Inteligência artificial: o desafio de uma regulação de impacto social

É inegável que a inteligência artificial é a tecnologia mais discutida no momento, seja por sua necessidade de regulação ou pelo seu potencial de transformação. “Em 2014, o total de investimento em startups de IA era da casa de US$ 30 milhões por ano. No último ano foi US$ 10 bilhões, então claramente existe uma aceleração”, afirma Bolonhini, da Bain & Company.

Para ele, o impacto da transformação digital vai depender da capacidade de aplicação da IA em vários setores. O desafio é encontrar diretrizes normativas que contemplem tanto a proteção de dados pessoais e considerem impactos sociais quanto promovam inovação.

“Qualquer regulação precisa visar que os benefícios sejam capturados reconhecendo e enfrentando os desafios já mapeados e os que surgirão, como replicação de vieses, transparência, privacidade e impacto ambiental”, afirma Rizzo.

No momento, o caminho apontado é de harmonizar regulamentações existentes considerando uma abordagem de risco da aplicação de cada solução de inteligência artificial. Isso significa que aplicações que ofereçam maior risco precisarão de maior regulação.

Outro ponto em discussão pela força-tarefa é a padronização da terminologia utilizada para definir o que é IA. “O nosso fórum, por ser a principal força-tarefa dentro do B20 a focar nesse tema e por ter mais de 150 participantes ligados ao sistema de tecnologia, vivendo essas discussões quentes de IA nos diferentes ambientes, vai ser um fórum bastante rico para entender o estado de IA e os diferentes ângulos que cada país, cada empresa e cada segmento econômico têm para poder contribuir para essa discussão e para essas políticas que a gente vai propor para o G20”, completa Bolonhini.

FIEPB