Por Edson Pereira
Entre o discurso e a sobrevivência eleitoral: reconfiguração de alianças marca disputa ao Senado na Paraíba
Na Paraíba, a corrida ao Senado ganhou contornos mais complexos nas últimas semanas, evidenciando como o pragmatismo político costuma prevalecer sobre posições inicialmente rígidas. O ex-governador João Azevêdo, que deixou o cargo com um discurso de coerência administrativa e ética pública, agora se vê diante de um cenário em que a viabilidade eleitoral depende diretamente da ampliação de alianças — inclusive com atores antes descartados.
Recuo estratégico e pressão eleitoral
No início da pré-campanha, Azevêdo sinalizou distanciamento de lideranças da capital, como o prefeito Cícero Lucena e o vice-prefeito Leo Bezerra, em razão de divergências quanto ao alinhamento na disputa pelo governo estadual. A decisão foi interpretada como uma tentativa de manter coerência política e fortalecer um palanque próprio.
No entanto, a dinâmica eleitoral rapidamente impôs novos desafios. A consolidação de articulações paralelas, especialmente envolvendo o deputado federal Hugo Motta e o prefeito de Patos Nabor Wanderley, acendeu um alerta no entorno do ex-governador.
O peso do “segundo voto”
Um dos elementos centrais dessa disputa é o chamado “segundo voto” ao Senado. Como cada eleitor pode votar em dois candidatos, grupos políticos trabalham para ocupar não apenas o voto principal, mas também essa segunda escolha — muitas vezes decisiva em cenários apertados.
Nesse contexto, Hugo Motta e seu grupo têm buscado capitalizar apoios que não necessariamente são exclusivos, mirando justamente esse espaço complementar. A estratégia pode fragmentar a base de Azevêdo e comprometer sua competitividade, sobretudo em regiões onde sua vantagem não é consolidada.
Veneziano e o jogo cruzado
A presença do senador Veneziano Vital do Rêgo, candidato à reeleição, adiciona outra camada de complexidade. Com base eleitoral estruturada e trânsito entre diferentes grupos, Veneziano também disputa o segundo voto, criando um cenário de sobreposição de alianças.
Na prática, isso significa que um mesmo líder local pode apoiar formalmente um candidato e, ao mesmo tempo, abrir espaço para outro na segunda opção do eleitor — diluindo fidelidades e tornando o resultado mais imprevisível.
Capital como campo decisivo
João Pessoa aparece como peça-chave nesse tabuleiro. O peso eleitoral da cidade torna o apoio de Cícero Lucena e Leo Bezerra particularmente relevante. A eventual reaproximação com essas lideranças não apenas amplia o alcance de Azevêdo, mas também reduz o espaço de avanço de adversários.
Fontes de bastidores indicam que o movimento de flexibilização já é tratado como inevitável dentro da campanha. A lógica é simples: em uma disputa majoritária, isolamento político pode custar caro.
Entre narrativa e prática
O episódio expõe um padrão recorrente na política brasileira: a tensão entre discurso e prática. Se, por um lado, a rejeição inicial a determinados apoios reforça uma narrativa de coerência, por outro, a necessidade de sobrevivência eleitoral impõe ajustes.
Para analistas, esse tipo de reposicionamento não é necessariamente uma exceção, mas parte do funcionamento do sistema político, especialmente em eleições proporcionais majoritárias como a do Senado.
Cenário em aberto
Com múltiplos atores disputando espaço e estratégias voltadas à captação do segundo voto, o cenário na Paraíba permanece aberto. A capacidade de articulação, mais do que posicionamentos iniciais, tende a ser o fator decisivo nas próximas fases da campanha.
No fim, a máxima popular citada no debate político local parece ganhar nova interpretação: na política, nem sempre a “chuva” molha — mas quase sempre obriga os candidatos a mudar de direção.









